Estudos mostram que a organização da casa tem impactos na maneira como gerenciamos pensamentos e emoções
Imagine um quarto com a cama desfeita, sobras de comida e canecas na escrivaninha e roupas sujas espalhadas pelo chão. Imaginou? Para uma parcela de pessoas, essa cena é capaz de despertar sentimentos negativos. Isso porque a desordem tende a ser associada à confusão, irritabilidade, ansiedade e até preocupação.
“O ser humano demanda o mínimo de organização e previsibilidade“, explica o psicólogo Wagner de Lara Machado, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). “Tanto que uma das primeiras orientações dos pediatras para os pais é: tenha uma rotina. E ela só vai ficando mais complexa ao longo do desenvolvimento.”
Um estudo publicado no The Journal of Neuroscience examinou como o cérebro humano funciona em meio ao caos e os resultados mostraram que organizar o ambiente ao redor pode ser uma maneira de garantir que a nossa capacidade mental (que é limitada) seja usada da melhor maneira possível.
Em resumo, se o campo de visão estiver cheio de objetos que não têm nada a ver com nosso objetivo, mais o cérebro precisará trabalhar para manter cada um deles fora de foco. “O nosso cérebro é meio acomodado. Ele gosta de saber onde estão as coisas e o que vai acontecer. Em um lugar muito bagunçado, ele não consegue processar aquele tanto de informação, e gasta muita energia tentando entender tudo o que está acontecendo”, ensina a neuropsicóloga Camilla Monti Oliveira.
O armário é um reflexo do seus pensamentos
A organização da casa diz muito sobre cada um. “É a externalização de um funcionamento interno. Ou seja, o ambiente vai ser uma forma de representar conflitos e de materializar o que acontece dentro de nós”, explica Machado. Assim como pessoas ansiosas e estressadas aprendem exercícios de respiração ou relaxamento, começar a organizar o ambiente que nos cerca pode ser um bom jeito de colocar pensamentos e emoções em ordem.
“À medida que controlamos o ambiente, tornando ele mais previsível, criamos um estado de alívio de tensões, e isso garante condições melhores para lidar com tudo. Começamos a ter mais tempo disponível, menos estresse e mais foco em nós mesmos”, descreve Machado.
Claro que se concentrar somente na organização do lar não é suficiente para lidar com transtornos mais graves. Aqui, estamos falando de questões transitórias ou fases iniciais de algum sofrimento psicológico. “A pessoa deprimida não consegue ter nem a motivação para dar esse pontapé inicial. Mas nada impede que isso faça parte do plano terapêutico, como um exercício”, pontua o psicólogo da PUCRS. Nesses casos, a arrumação pode ser uma tentativa de regular as emoções e não transformar isso em algo mais grave.
Um estudo publicado na revista Personality and Social Psychology descobriu que, ao dar uma volta pela própria casa, as pessoas que consideravam o ambiente desordenado eram mais propensas a se sentir constantemente cansadas e a exibir sintomas de depressão. Os efeitos estavam ligados ao hormônio cortisol, que desempenha um papel importante na forma como respondemos ao estresse.
“É a sensação de não poder desligar, relaxar. A pessoa sente que sempre tem algo a ser feito. E, na maioria das vezes, tem mesmo: um acúmulo de poeira, uma louça, uma roupa a ser dobrada. Esse sentimento somado às características de uma personalidade mais preocupada podem favorecer quadros de ansiedade ou depressão”, justifica Camilla.
Para uma parcela da população, a bagunça generalizada pode afetar mais do que o bem-estar mental. Um estudo publicado no jornal científico Environment and Behavior, em 2016, mostrou que uma cozinha caótica aumentou a probabilidade de voluntárias consumirem uma quantidade maior de biscoitos. Em comunicado à imprensa, Lenny Vartanian, principal autor da pesquisa, observou: “É como se pensassem: ‘tudo está fora de controle, por que eu não deveria estar também?’”.
Equilíbrio é fundamental
Para muitas pessoas, manter os ambientes organizados pode resultar em uma sensação de controle e ordem que, no fim das contas, alivia o estresse e promove o bem-estar. Mas é importante notar que a necessidade excessiva de arrumação também traz danos. Segundo Machado, trocar atividades relevantes e prazerosas por uma faxina pode ser um sinal de que o hábito de limpeza passou do limite.
“A recomendação é sempre a pessoa achar o seu limite em termos de desorganização/organização e procurar manter isso. Não precisa ser nada extremo”, aconselha Machado.
Segundo os especialistas, a hora da limpeza inclusive pode servir como um momento de reflexão e tranquilidade. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica Mindfullness, sugere que lavar a louça com atenção plena na atividade pode reduzir o nervosismo em 27% e aumentar a inspiração mental em 25%. “Muitas vezes, quando estamos focados em algo mecânico, nosso cérebro descansa da imensa carga de pensamentos cotidianos e, em segundo plano, continua trabalhando naquilo que ele precisava pensar ou solucionar”, explica Camilla.
Fonte: Estadão


